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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

As escolhas das crianças, formatadas pelo estado da educação atual

Edição e observação          
«Depois de 634 visualizações, este texto teve apenas 3 ou 4 comentários e alguns likes no facebook. Não me surpreende. Entendo que nem todos partilhem da mesma opinião que eu, isso é natural mas porque não fomentar uma discussão sobre isso mesmo? 
O estado da educação atual.... Será saudável? Será credível? Será verdadeiramente enriquecedor? Será sustentável? Será benéfico? Para quem? Será... será.... será....?
Fiz então uma breve edição a este texto...comecei pelo título. Veremos se apela ao interesse do educador, do pai, do leitor...»


Este texto é uma opinião pessoal e uma consequência das minhas experiências profissionais, algumas conversas com colegas educadoras e pais de crianças.



Aqui está uma questão que há partida não trás muitas dúvidas. Por um lado há os que acreditam e dizem, de uma forma redonda, "SIM", por outro lado temos o "NÂO" que demonstra, com toda a certeza a própria insegurança da pessoa que o diz.

Esta questão surgiu após uma conversa com uma amiga e colega, que este ano ficou colocada numa instituição onde ficou decidido que, nas efemérides, onde existe construção de prendas para oferta aos pais, as mesmas seriam iguais em toda a instituição, instituição essa, de renome (Setúbal).

Não é nada comigo mas sinceramente 
foi algo que me incomodou imenso.

Depois dessa conversa (no início de dezembro), sentei-me em frente ao meu computador com o meu blogue aberto na opção "criar no mensagem" e pensei em escrever, escrever e escrever, demonstrando apenas uma opinião. Depois parei. Pensei. 
Queria perceber se a maior parte das colegas pensam da mesma forma, então fui a três grupos diferentes no facebook que se intitulam "Educadores e educadoras", "Amo educação infantil" e "Educação de infância". 



Coloquei uma questão e dei a opção de várias respostas. 

 Eis o resultado.


 

" Deve a criança fazer as suas escolhas, 
em contexto de sala?" 

37 colegas:    "Sim respeitando a indicação do adulto"
14 colegas:    "Sim respeitando sempre as regras de sala"
4   colegas:    "Sim sempre"
1   colega  :    "Sem opinião"
0   colegas:    "não, seja em que circunstância for"
0   colegas:    "não, com exceções ditadas pelo adulto"
0   colegas:    "não, se os pais derem essa indicação"
0   colegas:    "sim, se os pais derem essa indicação"
0   colegas:    "outra (deixada em comentário)" 

Curioso... 

Depois de analisar estas respostas quis falar com algumas colegas/amigas educadoras, para tentar entender outras perspetivas, outras formas de trabalhar. Depois de muita conversa chegou-se sempre à mesma conclusão: existem, de facto, muitos profissionais/instituições que por insegurança ou inércia não avançam para novas abordagens

Note-se que a maioria das respostas apontam para a "escolha da criança com indicação do adulto", então pergunto: como está a criança a escolher? que escolha é feita por ela? Não faria mais sentido deixar a criança fazer as suas escolhas respeitando as regras da sala?


Vejamos o exemplo 1, simples... mas algo que pode acontecer com frequência nas nossas salas:
Para o Dia da Mãe, a Educadora Z propõe a execução de uma caixa de costura para cada criança poder oferecer mas...
 - a Criança T sabe que a sua mãe não vai dar grande valor ou utilidade porque não gosta de costurar
(ok qualquer Mãe dá sempre um grande valor às pequenas obras dos filhos mas estes sentem quando a prendinha é de facto valorizada ou não, como sendo útil)
 - a Criança R e a Criança S são gémeas, estão na mesma sala e oferecem a mesma prenda, ficando esta Mãe com duas ofertas iguais 
(ok haverá sempre diferenças porque cada uma pinta ou cola de maneira diferente mas a partir do momento em que a Mãe abre a primeira prenda a segunda já não será novidade e estas crianças sentirão que o que fizeram não é algo verdadeiramente único) 
Vejamos o exemplo 2, simples... mas algo que poderia acontecer com frequência nas nossas salas:
Para o Dia da Mãe, a Educadora  Y propõe a execução de uma caixa de costura, um colar e um ramo de flores (cada criança escolhe apenas uma das hipóteses) e eis que...
 - a Criança T opta por escolher o colar, porque a sua Mãe usa frequentemente e sabe que para além de gostar lhe vai dar uso
 - a Criança R e a Criança S são gémeas, estão na mesma sala e a primeira quer oferecer a caixa de costura porque a sua Mãe gosta e dá utilidade e a segunda opta pelas flores que ficarão bem na mesa da sala.

E então? Faz sentido?

Estaremos todos a respeitar o que se preconiza? Estaremos a trabalhar naquilo em que realmente acreditamos ser o melhor para a Criança? Ou será que estamos a fechar os olhos a esta formatação que estão a impor a uma educação, supostamente, mais enriquecedora? Será mesmo enriquecedor o que acontece diariamente em todas as instituições, em cada sala? E já agora... enriquecedor para quem? A que custo? 

Porque é necessário que as crianças sejam agrupadas por idades? Porque há algo implícito por detrás disso. 
A questão é que as crianças da mesma idade têm as mesmas afinidades, têm as mesmas capacidades, têm... são iguais.
Claro que se se coloca uma Criança pequena num ambiente para que ela acredite que é igual aos demais e todos os esforços estão em que ela veja que é igual, a Criança vai sentir-se igual, vai ter tendência a comportar-se igual, a homogeneizar-se.






Estas questões podem ser um ponto de partida para uma reflexão e análise ao sistema de ensino atual, à forma como os profissionais de educação agem, encaram a profissão, as suas crianças e alunos, a sala, os colegas, a própria escola e no fundo a sua própria essência.


Comecemos pelo princípio


Segundo o Relatório para a UNESCO (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, traduzindo, Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI, sob a coordenação de Jacques Delors, a prática pedagógica deve preocupar-se em desenvolver quatro aprendizagens fundamentais, que serão para cada indivíduo, os quatro pilares da educação ou do conhecimento: 

aprender a conhecer indica o interesse, a abertura para o conhecimento, que verdadeiramente liberta da ignorância; 
aprender a fazer mostra a coragem de executar, de correr riscos, de errar mesmo na busca de acertar;  
aprender a conviver traz o desafio da convivência que apresenta o respeito a todos e o exercício de fraternidade como caminho do entendimento; e, finalmente,  
aprender a ser, que, talvez, seja o mais importante por explicitar o papel do cidadão e o objetivo de viver.


Fundamentados nos quatro pilares, podemos pensar numa escola com espaços de interação, de participação e de articulação entre os segmentos.
Deve procurar-se sempre o respeito mútuo, a criatividade, o construtivismo, a solidariedade, a cidadania, desenvolvendo habilidades que levem os alunos a serem agentes do seu próprio saber e construtores de novos horizontes que possibilite uma vida mais feliz.

Fonte
http://www.moodle.ufba.br...




Deve uma criança 

fazer as suas escolhas? 


Estará o ensino atual 

preparado para 

responder 

a esta questão?



Não se pode falar em liberdade na escola, deixando a Criança experimentar para depois lhe ser permitido que se liberte fora da escola. As crianças têm que ser livres na escola. "Se não podermos decidir o que fazer, o que experimentar ou o que viver estamos muito limitados na hora de aprender. Por norma, estas crianças que não possam ter esta autonomia acabam por ser pessoas dependentes de outras, nunca vão fazer o que querem  mas sim o que os outros querem." diz Pablo Lipnizky do Colégio Mundo Montessori da Colombia.

A vida está cheia de opções e temos que aprender a fazer escolhas, por isso, a organização de todo o material educativo faz com que as crianças possam tomar as suas decisões. Um ambiente que respeite as suas necessidades, que se possa mover, que tenha uma variedade de materiais, que possa descobrir, que possa tocar, que possa seguir os seus próprios impulsos, sem ninguém que pretenda ensinar-lhe.
"Um sítio onde os alunos possam escolher as disciplinas que não querem fazer, as que querem fazer, onde podem propor atividades auto gerenciadas por eles. Uma escola aberta, uma escola onde os estudante não têm que dar satisfações a ninguém, onde cada um podia ser si mesmo. Então quem quer entra aqui, quem quer entra ali e crianças com idades diferentes juntam-se e acedem ao que pretendem por seus próprios interesses. A Criança vai encontrando caminhos para o seu futuro e quer seja sapateiro, quer seja médico, sabe que vai dar-se bem pois fá-lo com todo o amor, com toda a arte e toda a entrega possível." é o conceito de várias escolas tais como a Escola Atica Inka Samana no Equador, como nos conta Maria Gariela Albuja, ou a Escola Ideas na Colombia.

"A criança, na medida em que erra, vai-se dando conta porque o próprio material que manipula leva à correção. Por norma não deveria ser o adulto a corrigir a criança; a própria criança deve corrigir-se a si própria. Agora também existe muito a correção por parte das outras crianças mas considero que do ponto de vista educativo é extremamente benéfico haver erros e equívocos para a criança. A própria ciência apresenta mais erros do que acertos. É verdade que avança e nós sabemos que pode avançar quando há um acerto, mas os erros são os que permitem que os cientistas possam avançar." in "Educação Proibida" (1)

Se existe tanta preocupação com escolas inclusivas, com uma educação baseada nos princípios descritos acima, como podemos bloquear a livre escolha numa criança? Uma base essencial para que se sinta respeitada, valorizada e confiante. Como podemos querer ocultar algo tão importante no desenvolvimento de uma criança como a sua autonomia, a sua livre escolha, a sua necessidade de expressão...?



A criança, desde que nasce, nasce com a capacidade de criar, ela é criativa, observadora e curiosa. E na escola podem acontecer duas coisas: que o processo seja acompanhado e se propiciem atividades para desenvolver essa capacidade ou que seja frustrada. Também desde essa altura, a criança tem a capacidade de se construir a si mesma, aprendendo com o que tem à sua volta, através de brincar e explorar o mundo. As crianças absorvem cultura, a dos pais, e isso vê-se também na linguagem. Está no contexto cultural humano, a letras, o números e as palavras então a criança aprende da mesma forma que aprende a andar porque os adultos andam. Quer dizer, quando um ser humano nasce, a sua biologia não o obriga a ser humano, precisa de nascer num meio humano. Tudo o que nos rodeia influencia totalmente a nossa aprendizagem. Os espaços, os tempos, as atitudes das nossas famílias, as emoções, os gostos, as crenças, tudo é parte deste ambiente em que nos construímos. 

A pergunta então é:
 que ambiente estamos a oferecer às crianças 
para que os adultos se desenvolvam desta maneira?

 
O atual sistema "Prussiano" originado do padrão militar de educação da Prússia do século XVIII, tem como objetivo criar uma massa de pessoas obedientes e competitivas, com disposição para guerrear. No princípio do século XX surgiram diversos movimentos na pedagogia, pensadores de diferentes partes do mundo desenvolveram experiências educativas centradas na ação, na liberdade da criança e na construção AUTÓNOMA DA APRENDIZAGEM repensando toda a estrutura da escola tradicional. Porém, no meio do século, todas estas ideias transformadoras começam a cair no esquecimento com medo dos países totalitários. 
Infelizmente, este foi o modelo que se espalhou pela Europa e depois pelas Américas. A sua principal falha está em ser um projeto que não leva em consideração a natureza da aprendizagem, a liberdade de escolha ou a importância do amor e relações humanas no desenvolvimento individual e coletivo.
.

Digamos que o professor é a figura que é encarregada de ensinar uma série de conteúdos que condizem, porque alguém determinou assim, com uma idade determinada. 

"Se eu concebo que em determinado tempo tem que aprender a escrever o seu nome, vou estar preocupado, e em vez de estar centrado na Criança vou centrar-me no objetivo e vou tentar adaptar a criança ao objetivo. Se o que eu quero é que aprenda e viva, digamos que de uma maneira espontânea, ela vai aprender de qualquer maneira mas eu não vou estar preocupado com isso e vamos poder fluir e desfrutar do processo. Finalmente as crianças não vão divertir-se mais, ou seja, em 20 anos terão uma lembrança melhor da sua escola, o que já é muitíssimo, mas além disso têm rendimentos melhores com resultados a longo prazo, melhores." in "Educação Proibida" (1)

Curiosamente a educação não é preparada por educadores, são administradores, são pessoas que não dão aulas. A educação que vemos hoje, é administrativa: há alunos que chegam, professores que dão aulas, alunos que vão, professores que saem e no dia seguinte é o mesmo ciclo. Um professor do estado é um funcionário a quem a autoridade diz: "o senhor, tem que ensinar isto, isto e isto e desta forma" porque tem de ser repetido a demasiadas crianças com um professor que tem demasiadas horas de aulas e com poucas horas de atenção ao aluno de forma particular. 

E aqui estamos agora, com este problema enorme nas mãos...
Assim, fracassados somos todos os que compactuamos direta ou indiretamente com esta verdadeira máquina de subjugar crianças e adolescentes inocentes.


"Este sistema de linha de montagem que nasce com o Taylorismo,  foi aplicado tanto na indústria, na escola e no exército de diferentes países e culturas do Ocidente. As escolas são colocadas no mesmo patamar das fábricas e dos presídios, com seus portões, grades e muros; com horários estipulados de entrada e saída, fardamento obrigatório (em alguns estabelecimentos) intervalos e sirenes indicando o inicio e fim das aulas Até à poucas décadas atrás a escola tinha muitas coisas de quartel e de asilo, inclusive o recreio termina com um sinal anónimo não humano, que indica às crianças de devem adestrar-se, pouco a pouco para parar num determinado lugar, atrás de uma determinada cabeça, para formar uma fila, geralmente do menor ao maior. Durante os últimos séculos, temos construído as nossas escolas à imagem e semelhança de prisões e das fábricas, priorizando o cumprimento das regras, o controle social. A escola foi pensada como uma fábrica de cidadãos obedientes, consumistas e eficazes, onde, pouco a pouco, pessoas se convertem em números, qualificações e estatísticas. As exigências e pressões do sistema acabam por desumanizar todos, porque isto vai além dos diretores, professores ou inspetores escolares.", citado em "Educação Proibida" (1)

Os alunos são considerados como grupos homogéneos, com conteúdos homogéneos, que têm de obter resultados iguais. Todos temos de saber o mesmo. Apesar de nós, adultos, não sabermos todos a mesma coisa, apesar de não nos dedicarmos todos ao mesmo, nas escolas todos têm que querer fazer a mesma coisa e têm que fazê-la igualmente bem. Então a escola tem pouca capacidade de responder às necessidades e à individualidade, porque a escola instrui e um centro de instrução é o que faz. Quem não aprende fica. Essa é a realidade. Isso implica, de certa forma, que o sistema de educação seja um sistema de exclusão, porque acaba por selecionar as pessoas que queiram avançar até, por exemplo, à universidade, para chegar a fazer parte de uma elite que domina as empresas, que domina o sistema de comunicação, produção, económico, etc. E o outro tipo de pessoas para as quais a escola não é suficientemente adequada, que estão destinadas a outro tipo de trabalho, mais precário, porque não vão dispor de diplomas
.

Ao sistema e aos estados não lhes preocupa isso, honestamente, não lhes preocupa o ser humano, enquanto pessoa, enquanto indivíduo e nesses termos, toda a educação que procure algo diferente e inovador acaba por ser "abafada".

Hoje em dia, muitas Crianças com interesses e comportamentos diferentes do esperado são diagnosticadas com condições psiquiátricas. Quem nos assegura que não estamos a confundir a diversidades nas Crianças, com doenças? 
Em "Educação Proibida" o Dr. Carlos Gonzalez referiu algo que muito se debate hoje e lança polémicas pois não é consensual entre médicos "É uma autêntica epidemia, uma moda, em algumas zonas há 10% de Crianças nas escolas a tomar psicofármacos para a sua, suposta, hiperatividade. (...) A hiperatividade não está demonstrada neurologicamente, dizem que existe uma doença porque você cumpre uns critérios de diagnóstico, então alguém decide que você é hiperativo, que você é um superdotado, que você está dentro do limite na normalidade aceita para considerá-lo inteligente. (...) Ou as Crianças de hoje são muito mais hiperativas que antes, algo que me custa a acreditar, mas se for assim teremos de nos perguntar qual a causa para esse problema e o que fizemos para que as Crianças ficassem assim. Ou as Crianças são iguais às de antes e então o que fizemos que já não as aguentamos?"
"Se queremos que as Crianças sejam criativas temos que permitir que elas criem e deixar que tenham atividades em que possam agir de forma espontânea", ou seja, fazendo as suas próprias escolhas.
Mesmo não falando em patologia ou supostos comportamentos desviantes ou diferentes, existem ações nos adultos que refletem a sua ignorância e impaciência com a Criança e a forma mais fácil de justificar atitudes, que não aceita ou não compreende, é rotular e criticar exigindo à Criança um comportamento que seja aceite pelo adulto. Este pediatra espanhol também refere esta situação quando refere "Esta Criança fala demais, deveria ser mais silenciosa, mas se esta Criança fala pouco deveria ser mais expressiva; esta Criança brinca pouco, teria que brincar mais; esta Criança mexe-se demais por isso deveria ficar mais quieta. Faça o que faça parece que tem que estar sempre mal, que tem que acabar por ser a Criança protótipo que faz exatamente metade de tudo".

Este é grande desafio: deixarmos de ter a tendência de dirigir a atividade da Criança. A única forma que sabemos de educar é dizermos ao outro o que fazer e como fazê-lo deixando pouco espaço para as experiências onde decidimos por conta própria.

Somos iguais como indivíduos, biologicamente somos uma espécie, mas social e culturalmente somos diferentes e isso a escola não tem conseguido entender.



É urgente 
que se continuem 
a educar os educadores!


Só mais um exemplo...?
 
Quando acabamos o 12ºano e decidimos tirar um curso, pensamos numa área que gostamos, que à partida, nos realizará profissionalmente. O curso de Educadores de Infância (assim designado quando o tirei), assim como tantos outros, deveria ser muito exigente quanto à entrada de alunos. 

Estamos a falar de pessoas que irão estar diariamente com Crianças! Estamos a falar de pessoas que deverão ensinar, acolher, acarinhar, proteger, instruir, respeitar, acompanhar, avaliar... e muitas delas não o sabem fazer e não o querem fazer. 
Falo com conhecimento de causa... infelizmente. 

Recordo-me que quando entrei no curso a minha turma tinha 50 alunas, algumas desistiram logo no início, outras a meio e no final houve quem acabasse por dizer que só tinha ido para aquela área porque não tinha conseguido entrar noutra.

Isto é grave! Muito grave! Esta falta de vocação é um desrespeito para com as colegas que estão por amor à profissão e para com as Crianças e suas famílias.

Depois há os outros colegas. Aqueles que são excelente profissionais mas que veem o seu trabalho a ser "sabotado" simplesmente porque sim. E este porque sim é, de facto, isso mesmo. Sim porque há quem ache que estes só se querem evidenciar. Sim porque é alguém dinâmico e que abafa os restantes colegas. Sim porque há invejas. Sim porque não vai de encontro com a "política" da instituição. Sim porque as sugestões que faz dá muito trabalho a pôr em prática. Sim porque não é compreendido e muitas vezes é visto quase como uma ave rara... Uma realidade que nós tão bem conhecemos. Eu conheci.

Obviamente que há ainda os de exceção! Todos os colegas que estão por vocação, que se entregam ao seu grupo de uma forma sensível e honesta e sem preconceitos ou sem receios, conseguem fazê-lo livremente.

Felizmente há muito bons profissionais mas infelizmente nem todos são devidamente reconhecidos.  

O reconhecimento da nossa área 
só acontecerá quando 
deixarem de existir 
profissionais e/ou instituições 
que fazem com que sejamos vistos como 
"Tratadores de Crianças".

 
Tudo isto me entristece.

 
Será assim tão difícil entender o que é o melhor para a Criança? Será assim tão difícil de perceber que quem está na área da educação não pode simplesmente tirar o curso e pensar que está tudo feito? É preciso continuar a investir na sua formação profissional e pessoal!


Tem sido gerado todo um movimento, de décadas, chamado Escola Ativa, onde a Criança faz, produz, sai da cadeira. Mas isto não é novo, já nos anos 50, Piaget escreveu sobre isso, e não se põe em prática porque dá trabalho, há preguiça.

Jordi Mateu da XELL, Rede de Educação Livre em Espanha coloca uma grande questão, "Qual é o objetivo da educação? Aprender? Aprender o quê? Conhecimentos?" e responde dizendo "...ir desenvolvendo umas capacidades humanas que só se desenvolvem a partir da relação com o outro, a partir do tempo, a partir do processo, a partir do fazer, a partir do comunicar, a partir de se ver e de se reconhecer, a partir do amor."

A educação sistémica diz que os protagonistas da educação são os pais, então uma escola que está pouco vinculada com as famílias, é uma escola que tende a fechar-se sobre si mesma, e como consequência, a reproduzir mecanismos de relação e aprendizagem que seguramente estão desvinculados da realidade de cada um dos alunos. Sem o envolvimentos dos pais, e da família em geral, não pode haver projeto.



 Vale a pena ouvir quem sabe e pensar no que dizem...



"Todo mundo fala de paz, mas ninguém educa para a paz. As pessoas educam apenas para a competição e a competição leva à guerra."

— Pablo Lipnizky

"A única revolução realmente digna de tal nome seria a revolução da paz, aquela que transformaria o homem treinado para a guerra em homem educado para a paz porque pela paz haveria sido educado. Essa, sim, seria a grande revolução mental, e portanto cultural, da Humanidade. Esse seria, finalmente, o tão falado homem novo."


"Nunca duvide que um pequeno grupo de cidadãos, prestativos e responsáveis possa mudar o mundo. Na verdade, é assim que tem acontecido sempre."


"A liberdade real virá quando nós nos libertarmos da dominação da educação ocidental, da cultura ocidental, e do modo de vida ocidental."


"A criança escolhe com intenção, realiza com concentração e reflete sobre aquilo que aprendeu. Com um passo de criança, dá um passo de gigante na interiorização de uma metodologia fundamental na aprendizagem ativa!"


"As crianças são encorajadas a explorar o seu ambiente expressando-se através de todas as suas linguagens naturais, a tomarem  decisões e a fazerem as suas próprias escolhas, geralmente em cooperação com os seus colegas, sobre o trabalho a ser realizado, possibilitando o desenvolvimento da confiança das crianças."

"Não me sigam, sigam a criança" 

"Não há basicamente em nenhum nível, uma educação que não seja a auto educação (...). Qualquer educação é auto educação e nós, como professores e educadores, somos, em realidade, apenas o ambiente da criança educando-se a si própria. Devemos criar o mais propício ambiente para que a criança se eduque junto a nós, da maneira como ela precisa educar-se por meio do seu destino interior."


"...a educação sem liberdade dá como resultado uma vida que não pode ser vivida plenamente."
- Alexander S. Neill





(1) 
"A Educação Proibida" 
Este documentário é o resultado de mais de 90 entrevistas realizadas em 8 países através de 45 experiências educativas não convencionais e um total de 704 co produtores.
Um projeto completamente independente de uma magnitude sem precedentes, o que explica a necessidade latente para o crescimento e o surgimento de novas formas de educação.

Produzido em 2012, questiona a escolarização moderna e propõe um novo modelo educacional. Falam-se de abordagens como Método Montessori, Pedagogia Waldorf, Pedagogia Crítica, Pedagogia Liberador (Paulo Freire), Método Pestalozzi, Método Freinet, A Escola Livre, A Escola Ativa, Pedagogia Sistémica, Educação Personalizada, Pedagogia Logosófica. 

Neste documentário podemos ver os testemunhos de vários profissionais, reconhecidos na área da educação, investigação e medicina:

Dr. Carlos Calvo Muñoz - investigador em educação - Chile
Carlos Gonzalez - pediatra e autor- Espanha
Angela Camargo - Colégio Pachamama - Equador
Ana Júlia Barnadas - Montessori - Espanha
Juan Pere - Escuela Libre La caseta - Espanha
Carlos Wernicke - Fundação Holismo - Argentina
Cristóbal Gutierrez - Fundação CAI - Espanha
Jordi Mateu - XELL, Rede de Educação Livre - Espanha
Fernando Jorquera - Educacion en linea Yoaprendo - Chile
Carlos Gonzalez Peres - Educador e escritor - Espanha
Carlos Alberto Jimenez Velez - Investigador de neuropedagogia - Colombia
Sergi Torres - Conferencista e autor - Espanha
Helena Flik - Terapeuta e autora- Espanha
Gabriela  Gutierrez - Colegio Piccolino Montessori - México
William Rodriguez - Instituto Popular de Cultura CALI - Colombia
Carles Parellada - Pedagogia Sistémica UAB - Espanha
Miguél Angel Dominguez - Colegio Incre - Uruguai
Fredi Wompner - Investigador de Inteligência Holistica - Chile
Jahuira - Colegio Ideas - Colombia
Ginés del Castille - Escuela de la nueva cultura La Cecilia - Argentina
Emilio Uarti - Escuela experimental La Bahia - Argentina
Raúl Baza - Educador holístico - Espanha
Pablo Lipnizky - Colegio Mundo Montessori - Colombia
Fernan Melledas - Fundação Logosófica - Argentina
Rafael Heck - Colegio Rudolf Steiner - Chile
Montserrat Font Salas - Narradora e Educadora Waldorf - Alemanha
António Malagón - Associação de colégios Waldorf - Espanha

6 comentários:

  1. Antes de mais parabéns pelo seu blog e pelas partilhas, depois obrigada pela coragem de questionar, refletir e promover a inquietação de quem a lê. Lamentavelmente continuamos a ter escola gaiola, mas eu acredito na capacidade de alguns em a tornar asas para voos maiores.
    Bem haja, um abraço Milena Branco (Sítio da Educação)

    Ps- Farei questão de partilhar no meu blog a sua reflexão.

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    1. Milena Branco antes de mais muito obrigada pelos comentários. São muito muito importantes para quem ousa entrar neste campo, que com certeza deixará muitos indignados. Não diga que lamentavelmente a sua é assim, porque referiu que acredita na mudança. Basta ter força, basta acreditar e já existem escolas em Portugal que estão a mudar. Posso depois dar-lhe a indicação das mesmas. Obrigada mais uma vez pelo carinho e agradeço a partilha.

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  2. Cristina, parabéns pela audácia na redação deste texto! Subescrevo e vou partilhar!

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    1. Eu sei que fui audaciosa, sei que vai deixar muita gente indignada mas tinha que o fazer. Era o momento. Obrigada pela sua opinião e pela partilha, foi muito importante.

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  3. Bom dia,

    concordo com o que é exposto. Penso que a dificuldade se prende com a vontade e gosto pelo que se faz mas também com as limitações que cada instituição impõem, através de coordenadoras e colegas de trabalho que não entendem muito bem a diferença. No pouco tempo que puder exercer tentei dar sempre mais do que uma hipótese de escolha para não limitar a criança, algumas vezes consegui outras não. Mas no que tive dificuldade foi em fazer entender a colegas de trabalho que não fazia a não ser com o objetivo de dar liberdade de escolha...

    Esse seria sim um bom tema de reflexão: porque será que o "currículo oculto" das escolas (de forma geral) condiciona tanto o sucesso dos projetos que estão no papel e que às vezes não passam disso, de boas intenções escritas?

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  4. O sistema não pretende crianças livres, e muito menos pensadoras, quer apenas pessoas formatadas para dar continuidade ao sistema que privilegia as elites de cada país...

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